Atualizado em 26/05/2020 09:47:50
Rua General Daltro Filho, 772 - CEP 97.900-000 | Telefones: (55) 3359 1613 | E-Mail: contato@uricl.com.br
Logo URI Cerro Largo
NOTÍCIAS
Encontre artigos com assuntos específicos utilizando a caixa de busca abaixo. Digite o termo e tecle ENTER.
15/05/2020 09:26:40 - Atualizado em 15/05/2020 09:27:21
por Silvia Dewes
Artigo acadêmico coloca desigualdade social como fator de comorbidade à Covid-19
"Coronavírus e a Política da Morte", escrito pela profª Gabriela Scheuermann e pelo acadêmico José Renan Petri, foi publicado no jornal Folha da Produção desta semana.
Visualizada por 223 pessoas.
CORONAVÍRUS E POLÍTICA DA MORTE
a desigualdade social como fator de comorbidade

Gabriela Felden Scheuermann*
José Renan Corrêa Petri**

“Num movimento rápido, o que estava à vista desapareceu atrás dos punhos fechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior do cérebro a última imagem recolhida, uma luz vermelha, redonda, num semáforo. Estou cego, estou cego, repetida com desespero […]”. 

Este trecho faz parte de Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, no qual descreve uma epidemia de cegueira que se espalha rapidamente. Será que a vida está imitando a arte? Assim como a cegueira saramaguiana, um vírus está se espalhando, contaminando (e matando) muitas pessoas. Até este momento, 135.106 casos de COVID-19 foram confirmados no Brasil, dos quais 9.146 foram letais. 

Nossa questão é: ambas epidemias (a de Saramago e o COVID-19) atingem a todos, indiscriminadamente. O vírus não escolhe raça, classe, gênero. Nada. Qualquer um pode contrai-lo e transmiti-lo a outras pessoas. 

Contudo, o comportamento dos Estados pode produzir graves diferenciações, fazendo com que determinadas pessoas sejam mais atingidas e afetadas que outras. A postura do Estado (omissão, silêncio, negligência) em relação à pandemia pode aumentar a letalidade do vírus, causando ainda mais mortes.

Pensemos em alguns grupos vulneráveis. Se a principal estratégia de combate ao coronavírus é o isolamento social, como ficam os moradores de rua? As tantas pessoas que vivem nas calçadas, que dormem de baixo de pontes e de viadutos. 

Lavar e higienizar bem as mãos também é uma estratégia de proteção, mas lembremos que muitas pessoas (especialmente as que vivem nas periferias) não tem saneamento básico nem água tratada. Muitas famílias não têm condições para garantir o básico de proteção. Muitas vezes falta dinheiro até para comprar sabão. 

Por isso, nos filiamos ao pensamento de Patrice Schuch e Calvin Furtado que alertam: a pandemia de coronavírus é um espelho da desigualdade. Embora as suas formas de disseminação atinjam democraticamente indivíduos e populações, o vírus encontra na desigualdade social as condições ideais para abater populações historicamente menos favorecidas. 

É claro que as estratégias de proteção são essenciais, porém ainda são insuficientes e não alcançam toda a população. Aqueles que vivem à margem da sociedade estão sendo esquecidos, mais uma vez, pelo Estado. 

Diante disso, em nossa opinião, insistir apenas em #fiqueemcasa é produzir uma política de morte, ou, como defende Achille Mbembe, uma necropolítica. 

Necropolítica, para Mbembe, é o poder de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Logo, é a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é descartável e quem não é. 

Será que não estamos escolhendo quem são os corpos descartáveis dessa pandemia? Será que os moradores de rua e moradores das periferias estão sendo vistos e protegidos pelo Estado? Ou estamos sob a névoa branca de Saramago, cegos em relação ao outro? 

Lembrem-se: já chegamos ao ponto de nos perguntar quem terá direito a um leito na UTI.

Quem vive e quem morre? 

Professora de Direito na URI campus Cerro Largo. E-mail: gabischeuermann.gf@gmail.com ou gabifelden@icloud.com 
**Acadêmico do 5º semestre do Curso de Direito da URI Campus Cerro Largo